Para mim, uma das coisas que mais marcarm a virada do ano no Brasil foi a entrada em vigência da nova ortografia da língua portuguesa falada por aqui. Dizem que isso foi para unificar melhor a língua portuguesa falada em diversos países. Sinceramente, sempre tive dúvida em relação a argumentos como este. Sempre escutei na escola que a língua é um “ser” em constante mutação e evolução causada pelo seu uso pelo povo. Se isso é verdade, até quando a ortografia vai ser comum em todos os países de língua portuguesa? Até os políticos aprovarem outra lei para unificarem novamente as línguas que se mudaram com o tempo? Enfim… não sou especialista neste assunto e este não é um blog sobre línguas. Então vou deixar este assunto de lado um pouco.
Por outro lado, no final do ano, durante as minhas férias, quando em geral eu me afasto consideravelmente dos computadores, uma pessoa próxima e com mais que o dobro da minha idade veio até mim reclamar que o UOL tinha mudado a interface do seu webmail e agora ela estava perdida. A questão é que apesar da idade, esta pessoa que eu conheço é bem interessada em relação à tecnologia de uma forma geral e mexe no computador com certo traquejo. Aliás, a reclamação em relação ao webmail era justamente porque ela usa esta aplicação como ferramenta de trabalho diária. Como eu estava por perto acabei indo ajudá-la com as dúvidas em relação ao novo webmail do UOL. Como eu tenho conta no BOL (que usa o mesmo engine de webmail que o UOL) eu sabia como era a antiga ferramenta. Já era um bom começo, imaginei eu. Mas confesso que, após ver o novo webmail, fiquei frustrado. Eu ainda conseguia utilizá-lo, mas ele tinha ficado mais difícil. Isso tudo para que ele fosse, “finalmente”, Web 2.0! Grande coisa! Mas, vá lá… eu conseguia usá-lo. Mas a pessoa que estava ali do meu lado estava com sérias dificuldades. E com razão! Para se ter uma idéia a lista de contatos era mostrada por ordem alfabética de… e-mail. Ou seja, se eu tivesse cadastrado nos meus contatos alguém com nome Miguel mas que tivesse o e-mail frances@algumlugar.com o nome Miguel aparceria na letra F!!!
Depois de ver isso e outras coisas toscas (tudo em nome da famigerada Web 2.0!) fiquei pensando na frustração da pessoa que veio me pedir ajuda. Fiquei tentando imaginar como era esta frustração porque, como eu disse, apesar de eu achar difícil, vá lá, eu ainda conseguia usar o webmail.
Depois de refletir durante um tempo eu acabei achando algo que, para mim, parecia ser equivalente àquela sensação de frustração: a tal mudança ortográfica do português.
Talvez o que realmente me incomode e fruste com esta nova ortografia seja a mudança em si. Eu fui alfabetizado e escrevo há mais de 10 anos segundo as normas da velha ortografia (que, diga-se de passagem, valerá até 2012; não misturá-las até lá é que vai ser difícil). Mudanças sempre incomodam e ter que reaprender a escrever vai ser um pouco chato. Mas, sinceramente, nada muito complicado neste caso, eu acho. Mais cedo ou mais tarde vou me acostumar (ainda mais com os corretores ortográficos de hoje em dia
). Mas fico imaginando: se eu já estou achando chato ter que reaprender o português, imagina a geração dos meus pais que está passando por isso pela segunda vez depois que foram alfabetizados. E a dos meus avôs que já passaram por isso três ou quatro vezes? Não sei como isso funciona em outros países, mas acho que estas mudanças políticas no Brasil não fazem muito sentido… ainda mais nesta quantidade. Como será que as pessoas mais velhas se sentem? Talvez já nem estejam se importando mais em aprender direito a nova ortografia se isso não impactar diretamente a vida delas.
Imagino que o sentimento de algumas pessoas em relação aos sistemas computacionais seja parecido. Apesar de as pessoas se acostumarem com eles e aprenderem a utilizá-los, de uma hora para outra, alguém decide que é necessário pegar um sistema que funciona razoavelmente bem e alterá-lo apenas para seguir as tendências da moda Web 2.0, prejudicando imediatamente um incontável número de pessoas que não estavam assim tão interessadas no modismo. Depois de algum tempo não seria de se estranhar que algumas dessas pessoas “desistissem” de tentar reaprender a utilizar o sistema.
Vejam que não sou contra mudanças! Desde que elas sejam necessárias, bem pensadas, planejadas, e de que venham para melhorar efetivamente a vida das pessoas, facilitando as tarefas. Sou contra mudanças políticas: como me parece ser a mudança ortográfica e como me pareceu ser a alteração do webmail do UOL (para citar só um exemplo na computação).
Por isso caros leitores, a mensagem que eu gostaria de deixar nesta primeira mensagem que escrevo este ano é uma que já foi tratada aqui neste blog outras vezes: quando você estiver desenhando um sistema ou redesenhando uma funcionalidade já existente, pergunte-se sempre se você está tomando decisões que realmente agregam valor e funcionalidade às suas alterações. Fujam das alterações políticas e burocráticas e, se necessário, fuja dos modismos também. Saiba utilizar as ferramentas e as tecnologias com aquilo que elas melhor tem a lhe oferecer e não vire escravo das novas siglas que aparecem o tempo todo.