A nova ortografia e o redesenho de software

February 13, 2009

Faz tempo que eu não escrevo por aqui… não é que minhas ideias andem sem acento. Ideias não faltam. Falta o algo extra que as coloca no papel. Ou, no caso, no blog.

Para mim, uma das coisas que mais marcarm a virada do ano no Brasil foi a entrada em vigência da nova ortografia da língua portuguesa falada por aqui. Dizem que isso foi para unificar melhor a língua portuguesa falada em diversos países. Sinceramente, sempre tive dúvida em relação a argumentos como este. Sempre escutei na escola que a língua é um “ser” em constante mutação e evolução causada pelo seu uso pelo povo. Se isso é verdade, até quando a ortografia vai ser comum em todos os países de língua portuguesa? Até os políticos aprovarem outra lei para unificarem novamente as línguas que se mudaram com o tempo? Enfim… não sou especialista neste assunto e este não é um blog sobre línguas. Então vou deixar este assunto de lado um pouco.

Por outro lado, no final do ano, durante as minhas férias, quando em geral eu me afasto consideravelmente dos computadores, uma pessoa próxima e com mais que o dobro da minha idade veio até mim reclamar que o UOL tinha mudado a interface do seu webmail e agora ela estava perdida. A questão é que apesar da idade, esta pessoa que eu conheço é bem interessada em relação à tecnologia de uma forma geral e mexe no computador com certo traquejo. Aliás, a reclamação em relação ao webmail era justamente porque ela usa esta aplicação como ferramenta de trabalho diária. Como eu estava por perto acabei indo ajudá-la com as dúvidas em relação ao novo webmail do UOL. Como eu tenho conta no BOL (que usa o mesmo engine de webmail que o UOL) eu sabia como era a antiga ferramenta. Já era um bom começo, imaginei eu. Mas confesso que, após ver o novo webmail, fiquei frustrado. Eu ainda conseguia utilizá-lo, mas ele tinha ficado mais difícil. Isso tudo para que ele fosse, “finalmente”, Web 2.0! Grande coisa! Mas, vá lá… eu conseguia usá-lo. Mas a pessoa que estava ali do meu lado estava com sérias dificuldades. E com razão! Para se ter uma idéia a lista de contatos era mostrada por ordem alfabética de… e-mail. Ou seja, se eu tivesse cadastrado nos meus contatos alguém com nome Miguel mas que tivesse o e-mail frances@algumlugar.com o nome Miguel aparceria na letra F!!!

Depois de ver isso e outras coisas toscas (tudo em nome da famigerada Web 2.0!) fiquei  pensando na frustração da pessoa que veio me pedir ajuda. Fiquei tentando imaginar como era esta frustração porque, como eu disse, apesar de eu achar difícil, vá lá, eu ainda conseguia usar o webmail.

Depois de refletir durante um tempo eu acabei achando algo que, para mim, parecia ser equivalente àquela sensação de frustração: a tal mudança ortográfica do português.

Talvez o que realmente me incomode e fruste com esta nova ortografia seja a mudança em si. Eu fui alfabetizado e escrevo há mais de 10 anos segundo as normas da velha ortografia (que, diga-se de passagem, valerá até 2012; não misturá-las até lá é que vai ser difícil). Mudanças sempre incomodam e ter que reaprender a escrever vai ser um pouco chato. Mas, sinceramente, nada muito complicado neste caso, eu acho. Mais cedo ou mais tarde vou me acostumar (ainda mais com os corretores ortográficos de hoje em dia :) ). Mas fico imaginando: se eu já estou achando chato ter que reaprender o português, imagina a geração dos meus pais que está passando por isso pela segunda vez depois que foram alfabetizados. E a dos meus avôs que já passaram por isso três ou quatro vezes? Não sei como isso funciona em outros países, mas acho que estas mudanças políticas no Brasil não fazem muito sentido… ainda mais nesta quantidade. Como será que as pessoas mais velhas se sentem? Talvez já nem estejam se importando mais em aprender direito a nova ortografia se isso não impactar diretamente a vida delas.

Imagino que o sentimento de algumas pessoas em relação aos sistemas computacionais seja parecido. Apesar de as pessoas se acostumarem com eles e aprenderem a utilizá-los, de uma hora para outra, alguém decide que é necessário pegar um sistema que funciona razoavelmente bem e alterá-lo apenas para seguir as tendências da moda Web 2.0, prejudicando imediatamente um incontável número de pessoas que não estavam assim tão interessadas no modismo. Depois de algum tempo não seria de se estranhar que algumas dessas pessoas “desistissem” de tentar reaprender a utilizar o sistema.

Vejam que não sou contra mudanças! Desde que elas sejam necessárias, bem pensadas, planejadas, e de que venham para melhorar efetivamente a vida das pessoas, facilitando as tarefas. Sou contra mudanças políticas: como me parece ser a mudança ortográfica e como me pareceu ser a alteração do webmail do UOL (para citar só um exemplo na computação).

Por isso caros leitores, a mensagem que eu gostaria de deixar nesta primeira mensagem que escrevo este ano é uma que já foi tratada aqui neste blog outras vezes: quando você estiver desenhando um sistema ou redesenhando uma funcionalidade já existente, pergunte-se sempre se você está tomando decisões que realmente agregam valor e funcionalidade às suas alterações. Fujam das alterações políticas e burocráticas e, se necessário, fuja dos modismos também. Saiba utilizar as ferramentas e as tecnologias com aquilo que elas melhor tem a lhe oferecer e não vire escravo das novas siglas que aparecem o tempo todo.

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posted in Design, Opinião by Leonardo Garcia

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  • mgalves

    E, baixando um pouco o nível da discussão, fuja dos frameworks, libs, linguagens e arquiteturas da moda, muitas vezes escolhidos porque todo mundo está usando.

    E aproveitando a deixa, feliz 2009 Leo :-)

  • http://raphael.lullis.net Raphael Lullis

    Léo, gostei do texto. Acho que à medida que ficamos mais velhos ficamos mais conservadores. “If it ain’t broke, don’t fix it.”

    Mas não acho que a solução é buscar sempre uma mudança “necessária, bem pensada, planejada e que melhore efetivamente a vida das pessoas”. Se esse fosse a linha-mestre de raciocínio das pessoas que trabalham com tecnologia, pouco progresso seria feito. Tudo seria muito mais engessado, burocrático. Ficaríamos no fim justamente com um ambiente onde as mudanças seriam feitas por razões políticas, ambiente esse que nos traz regras ridículas como a reforma ortográfica.

    A solução – ao menos no caso tecnológico – é fazer com que a mudança seja opcional. É assim que o Gmail funciona, por exemplo, ao oferecer aos usuários a opção “usar a versão antiga”. Se o UOL fizesse isso, teria o melhor dos dois mundos: teria um ambiente livre para experimentações e desenvolvimento mais rápido, ao mesmo tempo que não prejudicaria os usuários que não precisam das tais “melhorias”.

  • laggarcia

    Raphael,

    Concordo com você que à medida que vamos ficando mais velhos ficamos mais conservadores. Acho isso normal.

    Também concordo que se tudo fosse “necessário, bem pensado, planejado”, etc., o desenvolvimento tecnológico seria menor.

    Mas, pelo menos na minha concepção, você só entrega coisas aos usuários quando elas estão prontas (talvez a minha visão esteja viciada depois de muitos anos trabalhando apenas com soluções enterprise). A não ser que você especifique o contrário. Isso é mais ou menos o que o Google faz com suas aplicações que nunca saem de versões beta.

    Ou, num exemplo na minha opinião um pouco melhor desta tática que você está falando, isso é exatamente o que o Yahoo! fez quando introduziu conceitos “web 2.0″ no seu webmail: ele perguntou explicitamente se eu queria migrar para o novo sistema que podia ser melhor mas estava sujeito a problemas ainda. E, até hoje, anos depois desta opção ser dada, existe um link fácil para retornar ao webmail anterior. A diferença que eu vejo em relação ao Google é que aparentemente as aplicações do Yahoo! um dia deixam de ser Beta (eu sei que isso acontece com o Google também, mas parece que esta não é a preocupação principal deles)

    Para falar a verdade, no caso do UOL existe um link para ativar o webmail anterior (descobri depois de um tempo, porque ele não era muito visível na minha opinião). Mas o problema é que o usuário não teve opção: ele foi simplesmente migrado para algo pior e certamente experimental (apesar de não ser apresentado como tal) sem que fosse perguntado se ele desejava isso.

  • Larissa Cristina

    Eu estou aki para fazer uma pergunta………..

    Qual é a importância do desenvolvimento tecnológico para a ortografia????????

  • Leonardo Garcia

    Oi Larissa,

    Como disse no meu post, não sou um especialista em línguas. Sinceramente, acho que esta sua pergunta seria muito melhor respondida por um linguísta do que por um engenheiro como eu.

    De qualquer forma, do meu ponto de vista, eu achei a pergunta um pouco vaga. Quando você fala sobre a importância do desenvolvimento tecnológica para a ortografia eu penso em várias coisas que não necessariamente estão ligadas entre si. Vou comentar apenas duas que me vieram à cabeça em um primeiro momento, sendo que a segunda ainda pode se desdobrar em várias outras.

    Por exemplo, eu penso que você pode estar falando sobre como as tecnologias podem ajudar na difusão do conhecimento ortográfico. Por exemplo, a Internet está sendo um meio muito interessante para difundir as mudanças instituídas pela nova ortografia. E, apesar de eu nunca ter visitado, dizem que o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo é bem legal e usa bastante tecnologia para ensinar… português.

    Por outro lado, talvez você esteja querendo saber sobre como o desenvolvimento tecnológico influencia a ortografia. E ai temos vários campos na minha opinião. Desde os inúmeros neologismos que são criados constantemente em computação até as novas formas de grafia que são desenvolvidas por comunidades (como, por exemplo, o “aki” que você usou em seu comentário). Imagino que só nestes dois campos daria para tecer diversas teses acadêmicas.

    Enfim, sinta-se a vontade para especificar mais a sua pergunta. Mas, como eu disse, acho que as pessoas melhor indicadas para responder à sua pergunta seriam linguístas. Tudo que eu dissesse seria puro palpite de engenheiro-que-gosta-de-meter-o-bedelho-e-dar-sua-opinião-em-tudo-quanto-é-lugar. :-)

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